Cem anos depois, o temor de uma catástrofe marítima semelhante a do Titanic voltou a assombrar tripulantes e passageiros de um navio de grande porte. Na noite de 13 de janeiro, o luxuoso cruzeiro marítimo Costa Concordia adernou e submergiu parcialmente após colidir com uma rocha, junto à ilha italiana de Giglio. A embarcação tinha 4.229 pessoas a bordo. Em 25 de janeiro, eram 16 mortes confirmadas e ainda 16 desaparecidos.
A culpa pelo desastre caiu de forma exclusiva sobre o comandante do navio, Francesco Schettino, acusado de provocar o acidente ao fazer uma manobra imprudente e, principalmente, por abandonar a embarcação antes de qualquer passageiro, contrariando todas as normas e recomendações marítimas.
Se o nome de Schettino ficará marcado como símbolo de incompetência e covardia na tragédia, as lições do naufrágio do Costa Concordia vão além. É o que afirma o consultor em segurança marítima Alexandre Castro, presidente da ABTN (Associação Brasileira dos Tripulantes em Navios de Cruzeiros) e da SOBEA (Sociedade Brasileira de Enfermagem Aquaviária)
Para ele, o treinamento de tripulantes não-aquaviários em gerenciamento de crise e controle de pânico, estabelecido pela IMO (Organização Marítima Internacional), tem carga horária muito aquém da necessária. Este público é formado pelos profissionais embarcados da área hoteleira e de entretenimento, como garçons, camareiras e músicos. Sua capacitação na área de emergência é de 34 horas, mas apenas duas para situações de gerenciamento de crise. Castro defende de 20 a 30 horas específicas sobre o assunto, com eventos e dinâmicas.
No Costa Concordia, imagens divulgadas revelaram detalhes de como a crise foi mal gerenciada. O consultor diz que o apagão inicial no navio foi passado por uma recreacionista como uma "pane elétrica" próxima da solução, recomendando a alguns passageiros que aguardassem tranquilos em seus camarotes. Em seguida, um aviso em sentido totalmente oposto ajudou a espalhar o pânico a bordo: a embarcação estava afundando.
"Mentir num gerenciamento de crise é perder a confiança, a credibilidade e o controle da situação", diz. "Ali se perdeu o momento chave, que é conquistar a confiança de quem está em perigo", avalia.
No Costa Concordia, estima Castro, dos 1.200 tripulantes, só 200 eram aquaviários (responsáveis pela condução e pela segurança do navio), portanto, qualificados para uma emergência. O índice é igual ao de qualquer cruzeiro do tipo.
Na opinião do engenheiro de Segurança do Trabalho Rodolfo da Silva Pereira, presidente da Sampling, empresa que realiza treinamentos de segurança em plataformas e navios, por representarem a grande maioria dos tripulantes a bordo, os profissionais não-aquaviários é que definem o sucesso da emergência.
No entanto, considera que sua atuação depende dos aquaviários, pois é deste grupo a responsabilidade pela segurança a bordo. Ele lembra que o tripulante não-aquaviário realiza o CBSN (Curso Básico de Segurança em Navios), que compreende orientações sobre primeiros socorros, incêndio e salvatagem, de forma geral. Já o gerenciamento de crise integra mais detalhadamente a matriz curricular do tripulante especializado, que é treinado para dirigir os passageiros para balsas e baleeiras em caso de abandono da plataforma ou do navio.
A qualificação dessa atuação conjunta, avalia Rodolfo, depende do nível e da periodicidade do treinamento a bordo. "É preciso intensificar os simulados internos para que as pessoas saibam o que fazer exatamente numa emergência", considera.
Para ele, o que prejudicou bastante o abandono do Costa Concordia foi a condição inusitada do acidente, com o navio emborcado e submerso apenas parcialmente. "Evidentemente, tem que ser prevista essa situação também, mas, nas condições normais de treinamento, ela não é muito evidenciada", diz. "Normalmente, o navio afunda e, assim, as próprias balsas são programadas para acionarem automaticamente em contato com a água", explica.
Fonte: http://www.revistaemergencia.com.br
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